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Não é “só” uma tontura!

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No período em que morei na Alemanha tirei férias, e por 15 dias voltei para o Brasil. Aproveitei esta curta estadia aqui para voltar ao HC e conversar com o chefe, na época o Prof. Milberto Scaff, contar as novidades, e logicamente avaliar as chances de criar um ambulatório de vertigem. Para mim foi uma dura conversa. Ele parecia não se conformar que eu estava há quase um ano na Alemanha estudando “só” vertigem. O que poderia haver de tanto interesse em um  assunto tão simples? E como uma neurologista poderia estar interessada neste tema? Ele não se conformava. Afinal, eu estava em um estágio na Neurologia ou na Otorrinolaringologia? Saí de lá transtornada, e muito preocupada. Mas retornei para Munique para completar meu estágio e depois de mais alguns meses estava de volta em São Paulo disposta a iniciar o doutorado. O próprio Prof Milberto foi meu orientador e ao longo dos anos seguintes acabou me apoiando muito e me ajudando a criar o ambulatório de vertigem no HC. Certamente ele havia se convencido da importância do tema, tanto em relação ao seu impacto para os pacientes, quanto à importância para a Neurologia.

Mas ao longo destes mais de 20 anos em que trabalho com esse tema, nunca deixei de ouvir frases como: “Você trabalha só com vertigem?” “O paciente tem só uma tontura!” “O paciente tem labirintite então prescrevi um antivertiginoso, coisa simples.” Logicamente, não é “só” vertigem, nem para quem sofre, nem para o sistema de saúde. Em ambos os casos há um forte impacto. Então vamos aos dados.

O Impacto da vertigem

As queixas tontura e vertigem são bastante prevalentes. Como a queixa tontura é mais abrangente, pois inclui alterações clínicas sistêmicas, enquanto a queixa de vertigem é mais restrita, os números também são diferentes considerando estas duas queixas, como mostrados nas tabelas a seguir.

Epidemiologia da tontura
prevalência ao longo da vida15-35%
prevalência anual11,5%
prevalência anual> 65 anos19,6%
incidência anual3%
Epidemiologia da vertigem
prevalência ao longo da vida7,4%
prevalência anual4,6%
incidência anual1,4%

A vertigem também leva a um impacto para quem sofre deste mal, com repercussão na vida social e de trabalho. Um estudo mostrou que entre mais de 4000 pacientes com vertigem, 68% diminuíram a carga de trabalho e 63% perderam pelo menos 1 dia de trabalho e com resultados mais radicais: 4,5% mudaram de trabalho e 5,7% deixaram de trabalhar. Definitivamente, para aquele que sofre, não é só uma vertigem!

Em relação ao impacto da vertigem para sistema de saúde os dados também não são muito animadores. Há uma solicitação excessiva de exames complementares. Estudos mostram que 70% dos pacientes são submetidos à ressonância magnética, e 30% a eletroencefalograma! Um terço dos pacientes procuram 3 ou mais médicos até receberem diagnóstico e tratamento adequados. Portanto, para o sistema de saúde também não se trata de “uma simples” tontura!

Um bom exemplo é o que acontece com pacientes com VPPB (vertigem posicional paroxística benigna). Trata-se de uma doença de fácil diagnóstico, baseado na história e no exame físico. O tratamento também é simples, através de manobras realizadas no consultório. Mas a realidade mostra que pacientes com VPPB precisam de várias consultas, realizam exames desnecessários, são orientados a usar medicação e até a conviver com a vertigem. Tudo isso a um custo estimado de U$ 2000,00 por paciente!

Figura 1. Este seria o algoritmo ideal na abordagem do paciente com vertigem posicional e diagnóstico e tratamento da vertigem posicional paroxística benigna (VPPB).
Figura 2. Ao contrário do que seria o o ideal, pacientes com VPPB precisam procurar vários médicos antes do diagnóstico, e com frequência realizam exames desnecessários, recebem prescrições ineficazes e ainda são orientados a aprender a conviver com a vertigem. Tudo isso somado eleva o custo para o sistema de saúde.

Então, resumindo, pacientes não têm “só uma tontura”! Temos sim que aprimorar os conhecimentos e melhorar nossa capacidade de atender estes pacientes, para o bem de quem sofre, no âmbito pessoal, social e de trabalho, e para o bem do custo do sistema de saúde, que direta ou indiretamente afeta a todos nós.

Bibliografia
  1. Neuhauser HK, Lempert T. Vertigo: Epidemiologic aspects. Semin Neurol. 2009;29(5):473–81.
  2. Li JC, Li CJ, Epley J, Weinberg L. Cost-effective management of benign positional vertigo using canalith repositioning. Otolaryngol Neck Surg. 2000;122(3):334–9.
  3. Benecke H, Agus S, Kuessner D, Goodall G, Strupp M. The burden and impact of vertigo: Findings from the REVERT patient registry. Front Neurol. 2013;4 OCT(October):1–7.

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